Darcy Ribeiro

ESPANTO

A ditadura militar, nos seus vinte anos de despotismo, tudo degradou. O que era bom estragou. O que já era ruim piorou. Na economia , de milagre em milagre, empobreceu impiedosamente o povo já miserável, e enriqueceu nababescamente os capitalistas parasitários da especulação e seus associados das empresas estrangeiras.

No plano político, a ditadura desmoralizou tanto os partidos como seus próceres, a maioria deles já imprestável. Acabou até mesmo com os partidos que a apoiavam para criar novos partidos, ainda mais submissos. Todo político com mínimo de dentes para morder e postura eficazmente combativa foi cassado. Só ficaram no cenário os desdentados, tanto no partido oficial, governista, como na oposição consentida, lambendo o poder com as gengivas.

No plano cultural, a ação da ditadura foi um descalabro. Os brasileiros mais lúcido foram exilados ou ficando aqui, se viram confinados e impedidos de execer qualquer influência. Deixaram assim de multiplicar-se em novas gerações de pensadores, de cientistas e artistas criativos, competentes e fiéis a seu povo.

As antigas universidades federais se viram degradadas, entregues aos piores quadros de seu corpo docente, cujo reacionarismo excedeu mesmo o dos protagonistas militares da ditadura, como ocorreu na Universidade de São Paulo. A Universidade de Brasília, esperança maior da intelectualidade brasileira, foi avassalada. Quase todos os professores altamente competentes que levei para lá se viram compelidos a demitir-se e a sair em diáspora para não se ver condenados  à convivência com a opressão e o opróbrio. A prata da casa chamada para substituí-los fez a universidade descer a níveis de macega goiana.

Simultaneamente a esse assalto às universidades públicas, foram abertas as porteiras para quem quisesse fazer do ensino superior uma traficância, montando sua escola. Criou-se desse modo um proletariado magisterial e estudantil e um ensino superior de descalabro, do que  o melhor que se pode dizer é que, na quase totalidade dos casos,os professores fazem de conta que ensinan e os alunos fazem de conta que aprendem. Essa triste simulação de vida acadêmica, que envolve a imensa maioria do alunato e professorado brasileiro, é extremamente perigosa dentro de um mundo em que a linguagem da civilização é a ciência cujo domínio é indispensável para que um povo exista para si mesmo e realize suas potencialidades.

A imprensa se concentrou em poucos jornais figadalmente fiéis à ditadura e ao patronato, em que o espírito de imprensa arrasou com o sentido de missão do jornalismo clássico. O rádio e a televisão expandiram-se prodigiosamente, fazendo da totalidade do povo brasileiroo seu imenso público não para servi-lo,interpretando seus interesses e expressando seu espírito, mas para explorá-lo  como mercado.

Nessas circustâncias, os novos instrumentos de comunicação de massa, tecnicamente de uma modernidade e eficácia admiráveis, se converteram em instrumentos de alienação cultural, nos quais só se considera bom o que é bom para vender mercadorias, sem o menor resquício de dignidade moral ou de responsabilidade social.

A situação chega ser tão escandalosa que eu  disse uma vez que o senhor Roberto Marinho é conivente com cada crime de estupro, dos que ocorrem no Brasil em número crescente, tal é a incitação ao erotismo de sua cadeia de televisão. Mais grave ainda, sobretudo para a juventude, é sua irresponsável incitação à violência e à criminalidade.

Pior que tudo é a irresponsabilidade ética a política de seu propritário, que declara com toda a defaçatez que acha legítimo tratar a concessão pública de canais de televisão não só como um negócio lucrativo, mas como um instrumento político de conformação da opinião pública. Assim foi, assim é. Ontem, para dar todo o apoio à ditadura, sem questioná-la jamais. Hoje, para apoiar as candidaturas de sua preferência, exatamente aquelas que mais se afastam de qualquer sentido e responsabilidade social frente à população e de qualquer sentimento de nacionalidade.

in Confissões – Cia. das Letras,1997
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Darcy Ribeiro (l922-l997), antropólogo, político e romancista, foi ministro da Educação (l96l), fundador e reitor da UnB, chefe da Casa Civil da Presidência da República, quando foi exilado pelo golpe militar de l964. Ligado ao PDT, foi vice-governador do Rio de Janeiro (l983-87), eleito senador em l990 e para a ABL em l992.